sexta-feira, março 10, 2006

Conceitos novos


Nove pessoas, alegadamente vítimas de suicídio colectivo, foram encontradas mortas no Japão...
Fazendo tábua rasa sobre o assunto do suicídio, reparo no pequeno pormenor de se tratarem de vítimas de suicídio, com certeza este é um caso único e paradigmático.

vítima: fig., pessoa perseguida ou sacrificada pela tirania ou injustiça de alguém;

suicídio: fig., ruína ou desgraça que se procura espontaneamente ou por falta de juízo;

A não ser que alguém tenha "suicidado" aquela pessoa, não me parece legítimo dizer que se trata de uma vítima, talvez porque o suicídio seja sempre visto como loucura, e nesse prisma somos vítimas da loucura. Alguém no seu perfeito juízo pode dizer que se suicidaria em plena posse das suas faculdades mentais?
Eu digo: claro que sim...

17 comentários:

rui-son disse...

é realmente um conceito interessante, vitimas de suicídio. conceito interessante era também o de um professor meu (já há uns anos), que achava que o suicídio era um crime contra a sociedade. talvez desse ponto de visto, "nós" é que acabamos a ser as vítimas do suicídio.

Ricardo disse...

Bem visto! Apesar de ser um tema complexo é óbvio que há uma contradição de palavras ao juntar vítima e suicídio. Na minha óptica compreendo que o Estado tente punir e evitar o suicídio mas não deixa de ser um acto individual (de egoísmo ou coragem, conforme as perspectivas)...

Abraço,

João Dias disse...

Rui-son:
Também sou capaz de perceber o conceito de que "nós" saímos lesados, espero que esse professor tenha pensado nisso numa forma humanista e não puramente pensando em mão-de-obra desperdiçada.
Mesmo que sejamos lesados nessa matéria, é preciso dizer que a liberdade individual assim o "exige", nesse aspecto já não concordo com o termo crime, porque exercer o seu direito de liberdade individual não deve ser considerado crime.
Assim como na eutanásia defendo o direito a não sofrer, defendo o direito de quem não tem perspectivas ou sofre danos emocionais "irreparáveis" de acabar com um sofrimento que pode não ter "fármaco" à altura.

Ricardo:
Sinceramente quando se fala de suicídio ou até eutanásia a questão de coragem ou cobardia não me diz muito. Os "cobardes" têm direito a morrer assim como os "heróis", qualquer um destes personagens sofre (se for humano claro) e tem o direito de acabar com o sofrimento que torna a sua vida insuportável. A vida também é feita de expectativas, esperamos poder respirar sem sofrer imensas dores, por isso quando eu vivo, vivo porque tenho as minhas expectativas básicas garantidas. Ninguém nasce para viver uma vida de sofrimento?


Eu acho que o suicídio é um direito do qual eu prescindo de bom grado.
No entanto existem casos de insanidade mental e nesse caso parece-me normal a intervenção e até nem me causa muita estranheza a noção de vítima.
O que eu acho é que o suicídio não é sempre fruto da loucura e por isso a vitimização nem sempre me parece adequada ao caso.
Neste caso foi um suicídio altamente premeditado, a loucura normalmente é contraproducente em matéria de planeamento. Houve contactos pela internet e escolheram um suicídio indolor, aliás do mais pacífico que há.
Diga-se que em países altamente prósperos como Japão e Suécia os suicídios batem recordes, é preferível pensar nisso do que lamentar "vítimas" de criminoso desconhecido.

rui-son disse...

Concordo, com tudo o que disseste, João Dias. Em particular, exactamente pelas razões que referiste, não considero o suicídio um crime contra a sociedade. E quanto à eutanásia, a mesma coisa.
Na altura, tentei ter uma discução sobre o assunto, com o meu professor, mas infelizmente ele não era "muito" aberto a discuções de opinião. Mas isto sei, as razões humanisticas não o preocupavam.

Karim disse...

Ó João Dias tenho uma proposta para te fazer... Não te queres juntar ao blog O Quarto Poder? É que o blog está mesmo a precisar de "sangue novo"... seria uma honra poder contar contigo

Um abraço e pensa no assunto!

João Dias disse...

Com certeza, não esperes é o rigor informativo dos vossos posts, eu sou mais para mandar bitaites.
Além disso não sou "sangue novo", ao pé de ti e do miguel sou um cota.
Mas com certeza que aceito.

Abraço.

Karim disse...

Excelente, é muito bom poder contar contigo n'O Quarto Poder ;)
Olha mandei o convite para o mail que está no teu perfil: esquerda_caviar@hotmail.com

Abraço

João Dias disse...

Diz-me só uma coisa:
quando deste o nome de "Quarto Poder" ao blogue em que pensavas?

Karim disse...

Boa pergunta... mas sinceramente não te sei responder... veio me simplesmente à cabeça o nome... normalmente diz se que a Imprensa é o quarto poder por toda a sua capacidade de influenciar decisivamente a opoinão pública...

Golfinho disse...

"Vítimas de..."
Ora bem, os jornalistas partiram do pressuposto que houve homicídio dessas pessoas, ou seja, que o líder espiritrual os induziu a cometer tal acto. Logo, há um verdadeiro homicídio em sentido formal por parte do líder. Daí o "vítimas". Foram vítimas de um homicida.
O termo está pois, correcto. Senão seria
os que se "suicidaram", ou "mataram".

Jornalismo obligé.

João Dias disse...

Claro Golfinho, mas a tua perspectiva também passa por uma certa desresponsabilização dos suicidas, assim como para certas pessoas o suicídio é por si só um estado de loucura.
É claro que eles podem ter sido "enganados" nesse sentido (embora na notícia não pareça).
Mas o problema é que sem se analisar a questão já se encontraram vitímas, eu acho que se encontraram jovens que se suicidiram, depois se veria até que ponto de facto estes foram conduzidos até esse destino. O que eu indirectamente crítico é este juízo pré-concebido de vítimas, não digo que ele não se aplique de todo, será diferente de caso para caso. E já agora, até que ponto nós somos iludidos a viver a vida da forma que vivemos, também nós fomos ensinados, também a nós nos disseram que certas condutas eram mais ou menos apropriadas, somos sempre influenciados, por isso aqui a questão é mesmo uma demonização da questão do suicídio.
O suicídio é uma má influência, e estes foram vítimas dessa má influência, esse é o raciocínio adjacente. Eu não tenho essa visão, a mim parece-me uma opção descartável, mas uma opção...

Existe uma frase de uma música que diz:
Korn (Faaling away from me)
"I flirt with suicide.
Sometimes kill the pain."

O que também me lembra a questão de como os crimes nas escolas dos E.U.A. foram sempre empurrados para as letras musicais, sempre com o Marilyn Manson na mira.

Golfinho disse...

M. M., o homem mais inteligente dos EUA? O único que soube que o que aconteceu em Columbine se deveu aos ataques massivos da NATO sobre Sarajevo e a sua influência nesses dois jovens? Tudo poqrque um Presidente não pode ter felatio fora do casamento?

Korn, com um vocalista com uma adolescências e infância terrível, um boderline?

Tudo são opções, "livre arbrítrio", mas depois TUDO depende de como digerimos e apreendemos certas influências, a nossa clarividência mental tem de estar bem alerta para ler para além dessas mensagens.

João Dias disse...

Nem eu disse que M.M. fosse o homem mais inteligente dos E.U.A. :-), simplesmente não o acho responsável por columbine.

O vocalista dos Korn (Jonathan Davis) tem o passado que tem, agora eu estou cá para apreciá-lo como pessoa que é e não como vítima que foi.
A amostra que eu dei foi para sustentar aquilo que eu digo, que o suicídio é muitas vezes visto como uma forma de pôr fim ao sofrimento, o vocalista que escreve isto não se suicida e não apela ao suicídio sequer. Ele diz "flirt", como quem diz namorar, pensar em, só pensar nisso "mata" a dor.

Em relação ao livre arbítrio..de acordo.

Golfinho disse...

João, eu é que considero o M. M. o homem mais inteligente do mundo, e adoro Korn!
Tenta ler "a contrario"

Golfinho disse...

rectius: América :-P

João Dias disse...

Ahhh...eureka.

:-P

Golfinho disse...

Era só ler com ponto de exclamação em vez de interrogação :)
Figuras de estilo.
Grande abraço.