domingo, junho 18, 2006

Opinar...

"Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta."

in O Livro do Desassossego

8 comentários:

João Dias disse...

E tu que transcreves as opiniões dos outros, és o quê?
És um farsolas é o tu que és...

Quando lemos algo deste tipo, se calhar não devemos levar demasiado a sério, isto porque o próprio autor (um engenhoso, no conceito filosófico do termo) não teve essa intenção. Esta frase é uma fuga da realidade, é o processo engenhoso de dar uma opinião fingindo que se têm muitas, é o processo de dizer que se tem muitas opiniões sabendo que a realidade não permite tal inconsequência.
O peso da realidade leva a que brinquemos com ela de forma inconsequente, isso não é mau nem bom, é apenas necessidade do intelectuo humano.

Rui Maio disse...

E já dizia a Dra. Rute Remédios:
"As opiniões são como as vaginas: cada um(a) tem a sua e quer dá-la, dá-a!"

João Dias disse...

Errata:
intelectuo -> intelecto

MW disse...

Pois... ser poeta talvez seja isso, ter a capacidade de "entrar" em todas as opiniões, em todas as existências...

Diz ele que não ter opiniões é existir... falará duma forma pura de estar, em que nada é filtrado pela via do intelecto, da racionalidade, das ideias pré-concebidas, da nossa história de vida... a teoria rosseuniana do bom selvagem? apenas sentir? reduzir a nossa condição a animais? e dessa forma ser-se totalmente livre?

Na realidade isso é impossível, somos altamente permeáveis e moldáveis e precisamos de ter opiniões e algumas certezas, mesmo que amanhã as reformulemos... O ser humano lida mal com paradoxos e incoerências e dá o seu cunho pessoal a tudo (informação, estimulos) que recebe...

Mas conheço pessoas, que, por forçamente não quererem ter opiniões e por medo de um suposto fundamentalismo (porque no fundo ter uma opinião, uma convicção, é um comprometimento, uma responsabilização que não querem ter), acabam por ser mais fundamentalistas (porque paralisam, estagnam, nada assumem e como tal não têm confrontos – dos quais se evolui) do que aqueles que têm opiniões, mas deixam a porta aberta para as poderem mudar...

É que uma coisa são certezas, outra são opiniões. Relativamente às primeiras tenho muitas poucas, em relação às segundas tenho algumas, que tento que não se transformem nas primeiras...

Mas deixo todas as opiniões do mundo para os poetas...eu seria incapaz de as suportar...(pelo menos algumas)... eles que carreguem todo esse fardo e todo esse peso do mundo...

Enfim... opiniões....que é como quem diz...bitaites..

João Dias disse...

mw:
Acho que leste na "perfeição" (não acredito em perfeição) as palavras de Bernardo Soares (Fernando Pessoa).

A forma como ele "preconiza" uma existência pura, uma existência apenas de sensações sem a "conspurcação" do intelecto e da razão, na essência da existência estarão somente os sentidos, afinal é com isso que nascemos.

Mas lá está na realidade alguém que queira materializar esse tipo de existência estará a condenar-se à incoerência, porque no dia-a-dia ela vai tomar decisões e depois como vai sustentar essa pureza de não ter opiniões? Quem pensar que pode não ter opiniões está fragilizado por negar a sua condição de ser humano.
Até os sentidos "já têm opinião", poucas pessoas comerão coisas desagradáveis por vontade própria, e mesmo as que o façam estão a fazê-lo de plena consciência, isso é já o intelecto a interagir com os sentidos, parece que estamos condenados a ter opiniões...

Eu tenho opiniões, mas não tenho todas porque não as quero sustentar na vida real, quanto mais não quero sustentar opiniões que são a negação do ser humano e da sua "essência".
Por exemplo não quero ter a opinião do Mário Machado, até porque isso não é uma opinião é um grunhido em forma de palavra...

A meu ver não ter opiniões ou ter todas é não querer assumir um compromisso com a realidade. Mas aceito as palavras transcritas, porque no campo da escrita poética, humorística...não a devemos aprisionar aos limites da realidade, estaremos a cometer um homicídio. Assim como seria um genocídio trazer alguma da realidade poética para a realidade mundana.

MW disse...

Pois... e a perfeição faz-se de imperfeições...

E não é por acaso que tenho (temos) uma frase dele (do Bernardo que é Pessoa), dessa mesma obra, tambem no meu (nosso)cantinho, debaixo do título do blog

É que, de facto, o gajo escrevia muito bem :)

Joana Dias disse...
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Joana Dias disse...

Não ter uma opinião é já ter uma opinião! É a assunção de um "caminho", de um valor, de uma ideia e sobretudo de uma intenção de se abster!
Porquê? Fica na alma de quem esconde.
E nem toda a poesia é descomprometida (porque, no fundo, esta não existe - ela esconde o que realmente pensa).
Partilhar o que se pensa é amar o outro! É respeitá-lo em toda a sua humanidade.