quinta-feira, abril 27, 2006

Cansaço

Ao Pedro o desassossego dá-lhe sono.
A mim consome-me o cansaço.


O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

8 comentários:

Golfinho disse...

Ai esse desassossegado...

Pedro Corga disse...

A pergunta impõe-se: cansaço de quê, meu mandrião?! :P

Pedro Corga disse...

Ah já vi de quê... de nada... pois :P eu acrescentaria "de não fazer nada" :P

Mas uma bela escolha sim senhor... gostei...

Golfinho: quem é que hoje em dia tem sossego? (eu tenho saudade dos dias preguiçosos - não vou fazer é publicidade descarada como fez o meu "patrão" hahaha)

João Dias disse...

Olhó funcionário público a dizer que eu não faço nada. Vai mas é para a reforma que ficas a fazer o mesmo que fazes agora.

Pedro Morgado disse...

O Fernando Pessoa era mesmo um génio, isso sim :)

rui-son disse...

Eu gosto da definição dos três tipos de idealistas.

"[...]Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.[...]"
Fernando Pessoa

Pedro Corga disse...

oh amigo... já estamos a entrar no campo da difamação! :P

Golfinho disse...

F. Pessoa era bipolar boderline = génio.