quinta-feira, maio 18, 2006

Especulações económicas


Visto que o discurso mediático sobre retomas e investimentos peca por estupidificante, convém mais do que tudo pensar na base do trânsito comercial.
Será que vale a pena regozijar-me com os investimentos socratistas sem perceber sequer o que quero para a economia ou, mais importante, a minha concepção de economia? Sendo assim começo por partilhar a minha concepção de economia: produto humano baseado na necessidade de satisfazer as necessidades e até caprichos humanos, troca de serviços, aquisição de produtos. Ora aqui entra o sistema monetário, como será fácil compreender a troca directa de produtos e serviços não satisfaz completamente as necessidades do ser humano, se eu prestar um serviço a um cangalheiro provavelmente não estou a contar que este me preste um serviço logo de seguida em troca. Assim sendo era preciso um intermediário, o dinheiro, um sistema numérico que permitisse uma avaliação do nosso serviço/produto e que permitisse que pudéssemos com a avaliação desse sistema numérico requerer outros serviços/produtos, também sujeitos à avaliação numérica, à nossa escolha.
Talvez se pensarmos no dinheiro como um sistema de avaliação e fizermos o paralelo entre essa avaliação e a escolar comecemos por perceber a origem de muitos problemas, pois é a avaliação nunca vai ser rigorosa a 100% e principalmente nunca é tão rigorosa como dizem ser os avaliadores. Assim sendo debruço-me sobre a avaliação dos serviços, é verdade que segundo a economia os serviços ou bens com mais procura serão aqueles que serão mais valorizados. No entanto pergunto-vos que cidade dispensaria os serviços de limpeza de ruas e quanto auferem os que prestam esse serviço...pois é, se calhar não é assim tão simples. Existe uma cumplicidade, é certo, entre procura e "prestígio". Sim "prestígio", na medida em que a visão e importância que a sociedade dá a um certo sector é vital para o salário que estes mesmos auferem, no entanto a relevância que é dada a apenas certas profissões e não a outras é um mecanismo de pouco rigor e baseia-se nesse mesmo aspecto pouco sólido...o "prestígio". Além disso as profissões mais bem pagas não estão propriamente ligadas à sua imprescindibilidade, estão sim ligadas à avaliação que os próprios avaliadores exercem sobre si...a banca torna isto bastante mais palpável e fácil de perceber. Ou seja além de a avaliação ser um processo inerentemente dúbio, existe o agravante de quando se dá o caso dos avaliadores se avaliarem a si mesmos. Agora, porque raios existem pessoas que têm o privilégio de se avaliar a si mesmas? Pois claro, são geralmente os proprietários, os donos dos meios de produção (até pode ser produção de serviços). Ou seja um dos problemas inerentes e que requer atenção é este da avaliação dos serviços, mas ninguém está para pôr isso em causa...pois não? Bem me parecia que não, já tendo o canudo ou vida feita para quê confrontarmo-nos com o desconforto da justiça.

Além desta problemática do dinheiro como sistema de avaliação surge uma mais recente e ligada às imensas possibilidades do dinheiro e a sua virtualidade, se formos ao âmago da questão o dinheiro é hoje maioritariamente electricidade, ou seja as contas bancárias são números visíveis em monitores, alojados em discos, "lidos" na forma de bits, bits que são tensões geradas pelo nosso sistema eléctrico...
A dimensão embora física, mas pouco palpável do dinheiro está a transformar a economia em jogos de números. Hoje em dia a grande actividade económica é feita à volta de pessoas que especulam sobre negócios e sobre quem de facto produz algo, pensemos na OPA do Belmiro "cash já", a grande actividade económica que houve não foi a aquisição de uma empresa por parte de outra ou um avolumar de negócios, foi sim a especulação de investidores e accionistas através da compra e venda de acções. Ou seja isto deita por terra as palavras que os nossos beneméritos neoliberais de fé inabalável introduziram no lexical da vox populi. Essas palavrinhas que caem em saco roto são por exemplo: empreendedorismo e produtividade. Ora caem em saco roto porque o "padre fala-nos da virtude da hóstia enquanto se delicia com uma "vichisoise", ou seja dizem os empresários para putativos concorrentes que a solução é empreendedorismo e produtividade, quando em simultâneo diminuem quadros de trabalhadores, entram em jogos de especulação e fazem jogadas sempre com o intuito de ter o Estado a segurar para o caso de dar barraca.
Não é que a produtividade não seja um bem, algo de valor no mundo das empresas, o problema é que o grande volume de negócios e os aliados a maiores maquias de dinheiro estão precisamente associados a fluxo de dinheiro que não estão associados a compra/pagamentos de serviços/bens.
Então como podemos manter este discurso mediático estando em simultâneo a jogar num mundo que sabemos ser completamente diferente? Pois por isso mesmo que eu digo que o discurso mediático é estupidificante…
(continuará, quando eu arranjar mais tempo :-P)

4 comentários:

Joana Dias disse...

Posso parecer parva, lírica e até interesseira (uhm... talvez um pouco); mas é por isso que passo a vida a afirmar e reafirmar que se as pessoas tivessem um melhor conhecimento e domínio da língua materna (no nosso caso, a portuguesa, mas o mesmo se aplica a outras línguas) não eram tão manietáveis. Dominar a língua faz com que sejamos mais expeditos, mais perspicazes e, sobretudo, mais conscientes do que se quer dizer não só com "o que" se diz, mas pela "forma como se diz".
O próprio conhecimento das figuras de estilo ajuda muito, ao contrário do que muitos dizem. Quem não entender bem a ironia dificilmente perceberá muitas coisas no mundo.
Enfim, João, tanta conversa para te dizer que concordo com o que tu dizes, mas já sabes como sou, tenho que ver uma luz ao fundo do túnel... os media têm de facto um discurso estupidificante, mas as pessoas não seriam tão "estupidificadas" se tivessem um bom domínio da língua. A língua ajuda-nos a pensar e o pensamento enforma a língua...
Beijinhos

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