sábado, outubro 11, 2008

"Cobardes"

Embora na realidade até possa não se tratar de cobardia, mas sim de oportunismo político, foi o que se ouviu na assembleia e a assembleia precisava de ouvir algo. A democracia continua a não se cumprir, o Estado continua a marginalizar pessoas cuja orientação (pelos vistos tem de ser obrigatoriamente uma orientação e não uma opção) sexual é homossexual.
Assumo hoje um pesar, pelo facto de Portugal continuar pobre, em direitos e democracia.

Não resisto a comentar o disparate nacional dominante da homofobia envergonhada, parece afinal que devemos ter em conta o "conceito" casamento e o que ele representa para a sociedade e, por isso, manter pelo menos o nome casamento em exclusividade para os casamentos entre pares heterossexuais.

Alguns apontamentos sobre o assunto:

-> Menciona-se uma eventual concepção da sociedade sobre um conceito, como se houvesse uma posição clara sobre este assunto.

-> Quem defende esta tese deve se assumir (afinal quem são os maricas?), dizer o que pensa e não criar uma sociedade à medida das suas intenções, se o fizer está a abandonar o campo da hipocrisia e contribuir para o debate.

-> Mesmo que a maioria da sociedade esteja incomodada com a possibilidade de um casal homossexual poder ser feliz, ter um contracto público que assuma isso mesmo e as benesses desse estatuto, isso não justifica que mantenhamos a injustiça porque ela tem muitos defensores. Os valores valem por si, pela lógica e razão que carregam consigo, não valem porque muita gente abdicou de pensar. Em última análise, o mundo devia ter ignorado a sociedade Nazi, não devia ter intervido, porque na Alemanha de Hitler os benefícios da exploração da miséria humana eram bastante consensuais.

-> Diz-se ser possível, existir dois direitos completamente iguais com nomes diferentes, só que o código civil não aceita parvoíces, e as coisas que são iguais têm nomes iguais. No momento de criar essa figura no código civil, a patranha ficava exposta, porque para distinguir as duas entidades, casamento e "qualquer coisa diferente", sendo elas rigorosamente iguais, teria de mencionar que a distinção passava somente pelo facto de uma ser para casais homossexuais e outro para casais heterossexuais.

P.S. Os Verdes, instrumento político do PCP, acham suficiente permitir à comunidade LGBT que se case, a verdade é que não chega, todos os direitos previstos para os cidadãos heterossexuais tem de ser extensíveis aos cidadãos homossexuais. Assim, o não reconhecimento ao direito de adopção materializa uma enorme nódoa no grupo parlamentar do PCP e Verdes, forças que se dizem de esquerda (e as outras também), não podem negar direitos básicos a elementos que, quer queiram quer não, são parte da sociedade.

5 comentários:

Nelson Peralta disse...

E tanta coisa a dar a entender que agora não, mas que após 2009 é que era... e afinal, mal a votação acabou e o PS desmarca-se logo dessa ideia!

Parece que o programa eleitoral vai ser misso" outra vez.

Stran disse...

Oi João,

O debate acabou por ser benefico embora triste. Demonstrou que o País Real ainda é diferente daquele que imaginamos, tal foram as barbaridades que se ouviram e leram.

E o pior é quando olho para o calendário e vejo o ano: 2008!!!

João Dias disse...

Embora ache, em geral, positivo o debate, custa-me aceitar que os direitos da comunidade LGBT sejam "debatíveis".
O debate deveria cingir-se à esfera da opinação sobre uma realidade (a garantia do acesso ao casamento civil), não sobre a decisão da mesma.
É como debater o SNS, podemos debater os modelos do mesmo, no entanto, sem nunca pôr em causa a base da questão, garantia universal a cuidados de saúde.

Stran disse...

Concordo perfeitamente. Esta é uma não-questão na minha opinião.

Existiu alguém conhecido (não me recordo do nome) que disse não se pergunta aos escravos se querem ser livres, simplesmente liberta-se.

Não se debate direitos, eles já são das pessoas quer o resto da sociedade o queira ou não...

Julgo que deveriam levar a tribunal europeu ou a algum orgão de direito internacional pois este é um caso de direitos humanos.

Deviam de pedir uma indeminização pelo tempo que lhes foi vedado o acesso aos seus direitos.

Joana Dias disse...

O que considero mais nojento (a seguir, evidentemente, à noção de que os homossexuais não têm os mesmos direitos que os heterossexuais) é como é que alguém se trai a si próprio por um punhado de votos.
"Eu até concordo, mas o momento não é oportuno!"
Ide-vos fo...
No fundo, não se estão a trair, porque eles (PS) não têm ideologias, só interesses.
Gostei da atitude do Alegre!
(Ainda que possa ter sido interesseira - não sei - foi coerente!)