quarta-feira, fevereiro 07, 2007

O multicultarismo de todos

Recentemente tive uma troca de argumentos com o Pedro Silva e Cão Rafeiro do blog armadilhas para ursos conformistas, essa troca de argumentos era à volta do multiculturalismo. Basicamente os autores deste blogue consideram esta realidade uma séria ameaça à nossa democracia, eu por outro lado acho simultaneamente condição essencial e natural de ser democrático. Portanto estamos em sério desacordo, aquilo que me proponho é fazer uma breve apresentação do conceito de multiculturalismo, mostrando que é uma realidade benéfica já existente e fazendo algum contraponto com a teoria universalista.

Wikipédia

http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/multicultura.html

http://www.tecnet.pt/portugal/26891.html

Antes de mais para abordar estes temas é preciso ter algum espírito de abertura, porque o que lemos sobre várias coisas têm muitas vezes adjacente a visão de quem escreve, e quem escreve nem sempre se presta a um serviço de qualidade. Para já, daquilo que li, posso relatar alguns traços comuns, um desses traços é que o multiculturalismo surge em forte oposição ao Estado Nação enquanto Estado que se desenvolve apenas em sintonia com os desejos dos "nativos de origem". Ou seja, numa luta frívola por manter uma identidade que é já por si uma mistura de identidades, o "nativo" que apenas se revê e reconhece a sua cultura sente um forte apelo a reconhecer superioridade na sua, note-se bem que este tipo de clausura mental é extensível a indivíduos do mundo ocidental ao mundo islâmico. A questão não era problemática se efectivamente os países fossem coisas estanques, mas não o são em termos geográficos e nem em termos de informação veiculada neste mundo globalizado. Talvez ignoremos por comodidade, mas quem muitas vezes imigra fá-lo por necessidade, e não falo de imigrantes de luxo, esses sempre tiveram direito à sua cultura, porque essa é universal, é a cultura e linguagem do dinheiro. Mas como nem todos "pertencem" a essa cultura, por motivos óbvios, sentem a necessidade de ter uma sua ou nem que não sintam essa necessidade, sentem a necessidade de ser igualmente respeitados, e o respeito pelo ser humano deve ser algo sem latitude nem longitude. Portanto, se há algo que temos de exigir, de ser "universalistas" é nos direitos humanos, o multiculturalismo surge então como algo mais complexo que cultural, porque como sempre o respeito pela cultura revela algo mais do que respeito por algo instrumental, revela respeito pelas pessoas. O respeito pelas pessoas é um todo, não é um respeito exclusivo, logo o multiculturalismo surge no sentido de abarcar todas as culturas e surge principalmente pela necessidade de num mesmo país e ordem jurídica estarem previstos os direitos e deveres de indivíduos de diferentes culturas. A corrente surge em séria oposição ao racismo, isto porque certas culturas são fortemente marcadas em termos de identificação racial, assim a rejeição da cultura surge muitas vezes como rejeição da raça que manifesta essa cultura.
Ora este fenómeno recente é visível em países que sejam coabitados por indivíduos de culturas e "sensibilidades" diversas.
“O multiculturalismo é hoje um fenômeno mundial (estima-se que apenas 10 a 15% das nações no mundo sejam etnicamente homogêneas).”

A Cão Rafeiro sugere a sua teoria universalista em detrimento da teoria multiculturalista, existe um sério problema nessa concepção, é que ser apenas universalista é redutor e pouco adaptado a um mundo cheio especificidades. Ou seja devemos ser exclusivamente universalistas nos direitos humanos, no sentido de lutar para que estes se cumpram em todo o mundo, já o não devemos ser em termos de hábitos alimentares, em termos de arte... A diversidade é enriquecedora, é até desejável. A negação do multiculturalismo em conjunção com a afirmação do universalismo padece de uma condição autoritária, porque por muita boa vontade que tenhamos a diversidade existe, mesmo que na diversidade exista algo em comum. Talvez tenha sido esse o principal erro da análise da teoria universalista em detrimento da multiculturalista, são duas coisas que devem coexistir, porque pô-las em colisão aniquila as duas em simultâneo. Eu não consigo coexistir em diferentes culturas sem ter algo de comum (universal) com as outras culturas, mas também não consigo ter algo de universal sem perceber e respeitar as diferenças (multicultural).

Aliás pegando na frase que serve de exemplo a este post da Cão Rafeiro:

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é-o à sua maneira”.

Esta frase espelha muito bem como universalismo e multiculturalismo são parte integrante do respeito pela diferença com base naquilo que nos é comum. É (quase) universal o desejo por ser feliz, mesmo se pensarmos em quem procura a dor, percebemos que existe algo dessa experiência que é enriquecedor para essa pessoa, ninguém se auto-destrói feliz...mas pode ficar feliz por o fazer (por exemplo, feliz por ser capaz de explorar os limites da dor). Esta frase ressalva que existe algo de comum entre as famílias felizes, todas se parecem na condição de ser feliz, no entanto a felicidade é alcançada de diversas maneiras. Esta frase é a negação de uma teoria meramente universalista, porque se temos algo em comum, também temos algo diferente, apenas o respeito pela diferença contemplando os laços que temos em comum permite que exista respeito mútuo.

Por outro lado Pedro Silva acha que existe demasiada permissividade no multiculturalismo e que essa permissividade irá minar o "nosso" Estado democrático, estaremos perante a ameaça de consagrar excisões e outras barbáries em democracia. Para já, segundo a minha opinião pessoal, esta é uma teoria algo catastrófica, mas principalmente com fracas possibilidade de ocorrer em Estados democráticos (aliás excisões femininas e democracia são "antíteses").
Aquilo em que discordo, é que o multiculturalismo seja permissivo em matéria deste teor, porque a sendo o respeito mutuo e a liberdade individual (não só, mas também) valores multiculturais, o pressuposto de que esta corrente consagraria tais barbáries implicaria que esta corrente não se "respeitasse" a si mesma. Outra questão de salientar, é que em termos reais não tivemos por parte de Estados democráticos nenhuma cedência desse tipo, nem essas cedências podem ser feitas em nome do multiculturalismo visto serem contraditórias em relação ao mesmo. Todas as reclamações por parte de extremistas que reivindicam da tolerância para praticar a intolerância, não foram atendidas, e por isso temos até tido manifestações positivas no sentido em que temos sociedades multiculturais que mantém a sua ordem jurídica e que respeitam em simultâneo a diversidade.

P.S.
Não deixa de ser irónico que uma das "fontes" de receio, o Islamismo, tenha ambições universalistas à semelhança de quem rejeita o multiculturalismo e afirma o universalismo.

7 comentários:

pedro silva disse...

João :deixa-me digerir e depois eu digo qualquer coisa.

pedro disse...

Aguardamos a tua digestão pedro. Quanto a ti João, nada a dizer. Concordo com o que dizes. Já nos esquecemos que, mesmo não existindo, já todos fomos Pangea?

Abraço,

p

João Dias disse...

Pedro Silva:
À vontade, aliás aconselho-te a responder se sentires a vontade para o fazer, caso contrário não se vai descobrir como dois tipos que parecem querer a mesma coisa afirmam duas coisas antagónicas.

Pedro:
É verdade Pedro, de certa forma estes problemas colocam-se porque o ser humano parece ser pequeno demais (mentalmente) para perceber que as fronteiras são virtuais. A realidade é que não há "fronteiras" e que a diversidade existe e não tem de ser uma coisa má por natureza.

Abraço

cãorafeiro disse...

detesto dizer isto, uma vez que vai soar a arrogância minha, mas, João Dias, lamento dizê-lo, estás gravemente equivocado em relação ao que chamas de multiculturalismo.

além disso, o artigo da wikipedia que linkas não passa de um branqueamento do multiculturalismo.

e como poderia eu estar a padecer de etnocentrismo, quando usei propositadamente como exemplos de universalismo pessoas com origens culturais tão diferentes como tolstoi, gandhi, luther king ou ibrahim rugova?

o universalismo não é contra o respeito pelas especificidades culturais de cada grupo.

basta ver o exemplo de gandhi.

não confundamos o universalismo com a tendência que a globalização nos impõe de uniformização cultural, mas claramente, de americanização.

o universalismo recusa a subordinação dos individuos às normas de comportamento tradicionais dos seus grupos de origem.

o multiculturalismo encerra as pessoas em ghettos, fingindo estar a respeitar as especificidades particulares das respectivas culturas.

por isso é que eu afirmo que o multiculturalismo é uma regressão civilizacional.

o universalismo não é uma teoria minha, eu apenas adiro aos seus princípios, que tem vindo a ser enunciados e consolodados por uma série de pessoas de diversas origens culturais, como as que citei no meu texto, e a que acrescento kant, popper, etc.

o multiculturalismo não é uma teoria tua, mas uma prática iniciada no Canadá nos anos 70. recentemente, um tribunal canadianos autorizou a aplicação da sharia , a lei islamica, à resolução de contenciosos envolvendo questões de direito da família de de sucessões. é isto o multiculturalismo.

agora imagine-se o que é um canadiano homossexual de origem iraniana...a ser empurrado de volta para o ghetto de onde saiu.

o multiculturalismo é a doutrina que legitima que um pai muçulmano impeça a sua filha estudante de praticar desporto na escola, como se está a tentar na alemanha.

aceita-se isto? se se aceita, como condenar depois os assassinatos de honra, em que um pai ou irmão mata uma rapariga da família por esta ter decidido ir viver com uma pessoa de outra religião? mas isto está a acontecer na Alemanha...

o multiculturalismo é uma regressão aos tempos do feudalismo, em que os judeus lá nos seus ghettos aplicavam entre si a lei corânica, ou aos tempos do império otomano, em que as comunidades estavam organizadas em millets.

João Dias, não estou a duvidar da generosidade dos ideais que defendes, mas considero que, tendo em conta o que aqui escreveste, estás equivocado, e devias informar-te melhor.

eu também já defendi ideias próximas do multiculturalismo, porque se trata de ideias extremamente sedutoras. mas quando aprofundei e comecei a ter a noção das suas verdadeiras implicações, rejeitei completamente tais falácias.

cãorafeiro disse...

em que os judeus lá nos seus ghettos aplicavam entre si a lei corânica...

naturalmente que me referia aqui à lei mosaica...

João Dias disse...

Cão Rafeiro:

Se o conteúdo da wikipédia não te agrada, tens mais dois à disposição, além disso a definição de multiculturalismo da wikipédia não é um branqueamento, é bastante conciso e vai directo àquilo que é o multiculturalismo em geral, e não àquilo que pensas ser o multiculturalismo.

Concordo contigo, o multiculturalismo não é uma teoria minha é uma realidade, e é uma realidade onde nenhuma das barbaridades que usas para o refutar se verificou.

Cão, o facto de mencionares individuos de diferentes origens culturais não invalida que a "tua" concepção seja perigosa no sentido de querer algo impossível e indesejável (etnocentrismo, autoristarismo). A questão é que ao afirmares o universalismo sem especificares em que campos este se aplica, corres sérios riscos de estar a defender uma "ideologia" universal que não respeita as diferenças. Por exemplo o Islamismo é uma corrente com ambições universalistas, isto levanta um problema sério, tu provavelmente não aceitarias o universalismo proposto pelo Islamismo, e eles não aceitariam o teu...claramente o universalismo por si só é fraco e inconsistente, tem de haver algo mais. Volto a afirmar, eu defendo o multiculturalismo e o universalismo, mas com limites bem definidos, sou universalista na defesa dos direitos humanos e sou multiculturalista no respeito por outras culturas. A questão de encerrarmos as pessoas na sua cultura é uma falsa questão, visto que o multiculturalismo prevê a coexistência de culturas, de modo algum impõe alguém que seja enclausurado nessa cultura, deves estar a pensar noutra coisa qualquer, mas que de certo não é multiculturalismo.

"o multiculturalismo encerra as pessoas em ghettos, fingindo estar a respeitar as especificidades particulares das respectivas culturas."

Isso é racismo e resultados de políticas de imigração desumanas, ou seja isso é a antítese do multiculturalismo. Políticas de imigração integradoras e humanas, essas sim são políticas multiculturalistas, sem nunca, mas nunca mesmo, por em causa direitos básicos.

"o multiculturalismo não é uma teoria tua, mas uma prática iniciada no Canadá nos anos 70. recentemente, um tribunal canadianos autorizou a aplicação da sharia , a lei islamica, à resolução de contenciosos envolvendo questões de direito da família de de sucessões. é isto o multiculturalismo."

O governo Canadiano acabou por tomar uma posição contrária, a Sharia actualmente não é aplicada no sistema jurídico do Canadá.
Além disso, nada do que dizes põe o que eu disse em causa, repara que tens duas realidades simultâneas, respeito pela diferença (multicultural) e direitos humanos (universal). Ora como a Sharia põe em causa os direitos humanos, pura e simplesmente não é aplicada, no entanto continua a ser necessário respeitar outras características intrinsecas das culturas que não atentem contra os direitos humanos.
Aquilo que eu enuncio respeita as outras culturas, e eu demonstrei como, aquilo que dizes não respeita outras formas de cultura, caso respeite diz como concretamente.

Não Cão, não estou equivocado, estou bem ciente do que defendo e bem ciente dos limites, acho que também devias ponderar melhor sobre essa tese meramente universalista, pelas grandes contradições que levanta e que já encunciei, isto é, quem determina o que é universal, e se será desejável obrigar os outros a aceitar esse universalismo.
Parece-me bem claro que existem problemas no mundo actual, longe estão eles de ter génese no multiculturalismo, este representa um passo em frente, basta perceber que algo que afecte direitos universais não é aceitável nem cultura, é crime e deve ser punido...como efectivamente acontece.

Anónimo disse...

O que é o multiculturalismo?