Recentemente tive uma troca de argumentos com o Pedro Silva e Cão Rafeiro do blog
armadilhas para ursos conformistas, essa troca de argumentos era à volta do multiculturalismo. Basicamente os autores deste blogue consideram esta realidade uma séria ameaça à nossa democracia, eu por outro lado acho simultaneamente condição essencial e natural de ser democrático. Portanto estamos em sério desacordo, aquilo que me proponho é fazer uma breve apresentação do conceito de multiculturalismo, mostrando que é uma realidade benéfica já existente e fazendo algum contraponto com a teoria universalista.
Wikipédiahttp://www.angelfire.com/sk/holgonsi/multicultura.htmlhttp://www.tecnet.pt/portugal/26891.htmlAntes de mais para abordar estes temas é preciso ter algum espírito de abertura, porque o que lemos sobre várias coisas têm muitas vezes adjacente a visão de quem escreve, e quem escreve nem sempre se presta a um serviço de qualidade. Para já, daquilo que li, posso relatar alguns traços comuns, um desses traços é que o multiculturalismo surge em forte oposição ao Estado Nação enquanto Estado que se desenvolve apenas em sintonia com os desejos dos "nativos de origem". Ou seja, numa luta frívola por manter uma identidade que é já por si uma mistura de identidades, o "nativo" que apenas se revê e reconhece a sua cultura sente um forte apelo a reconhecer superioridade na sua, note-se bem que este tipo de clausura mental é extensível a indivíduos do mundo ocidental ao mundo islâmico. A questão não era problemática se efectivamente os países fossem coisas estanques, mas não o são em termos geográficos e nem em termos de informação veiculada neste mundo globalizado. Talvez ignoremos por comodidade, mas quem muitas vezes imigra fá-lo por necessidade, e não falo de imigrantes de luxo, esses sempre tiveram direito à sua cultura, porque essa é universal, é a cultura e linguagem do dinheiro. Mas como nem todos "pertencem" a essa cultura, por motivos óbvios, sentem a necessidade de ter uma sua ou nem que não sintam essa necessidade, sentem a necessidade de ser igualmente respeitados, e o respeito pelo ser humano deve ser algo sem latitude nem longitude. Portanto, se há algo que temos de exigir, de ser "universalistas" é nos direitos humanos, o multiculturalismo surge então como algo mais complexo que cultural, porque como sempre o respeito pela cultura revela algo mais do que respeito por algo instrumental, revela respeito pelas pessoas. O respeito pelas pessoas é um todo, não é um respeito exclusivo, logo o multiculturalismo surge no sentido de abarcar todas as culturas e surge principalmente pela necessidade de num mesmo país e ordem jurídica estarem previstos os direitos e deveres de indivíduos de diferentes culturas. A corrente surge em séria oposição ao racismo, isto porque certas culturas são fortemente marcadas em termos de identificação racial, assim a rejeição da cultura surge muitas vezes como rejeição da raça que manifesta essa cultura.
Ora este fenómeno recente é visível em países que sejam coabitados por indivíduos de culturas e "sensibilidades" diversas.
“O multiculturalismo é hoje um fenômeno mundial (estima-se que apenas 10 a 15% das nações no mundo sejam etnicamente homogêneas).”A Cão Rafeiro sugere a sua teoria universalista em detrimento da teoria multiculturalista, existe um sério problema nessa concepção, é que ser apenas universalista é redutor e pouco adaptado a um mundo cheio especificidades. Ou seja devemos ser
exclusivamente universalistas nos direitos humanos, no sentido de lutar para que estes se cumpram em todo o mundo, já o não devemos ser em termos de hábitos alimentares, em termos de arte... A diversidade é enriquecedora, é até desejável. A negação do multiculturalismo em conjunção com a afirmação do universalismo padece de uma condição autoritária, porque por muita boa vontade que tenhamos a diversidade existe, mesmo que na diversidade exista algo em comum. Talvez tenha sido esse o principal erro da análise da teoria universalista em detrimento da multiculturalista, são duas coisas que devem coexistir, porque pô-las em colisão aniquila as duas em simultâneo. Eu não consigo coexistir em diferentes culturas sem ter algo de comum (universal) com as outras culturas, mas também não consigo ter algo de universal sem perceber e respeitar as diferenças (multicultural).
Aliás pegando na frase que serve de exemplo a este
post da Cão Rafeiro:
“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é-o à sua maneira”.
Esta frase espelha muito bem como universalismo e multiculturalismo são parte integrante do respeito pela diferença com base naquilo que nos é comum. É (quase) universal o desejo por ser feliz, mesmo se pensarmos em quem procura a dor, percebemos que existe algo dessa experiência que é enriquecedor para essa pessoa, ninguém se auto-destrói feliz...mas pode ficar feliz por o fazer (por exemplo, feliz por ser capaz de explorar os limites da dor). Esta frase ressalva que existe algo de comum entre as famílias felizes, todas se parecem na condição de ser feliz, no entanto a felicidade é alcançada de diversas maneiras. Esta frase é a negação de uma teoria meramente universalista, porque se temos algo em comum, também temos algo diferente, apenas o respeito pela diferença contemplando os laços que temos em comum permite que exista respeito mútuo.
Por outro lado Pedro Silva acha que existe demasiada permissividade no multiculturalismo e que essa permissividade irá minar o "nosso" Estado democrático, estaremos perante a ameaça de consagrar excisões e outras barbáries em democracia. Para já, segundo a minha opinião pessoal, esta é uma teoria algo catastrófica, mas principalmente com fracas possibilidade de ocorrer em Estados democráticos (aliás excisões femininas e democracia são "antíteses").
Aquilo em que discordo, é que o multiculturalismo seja permissivo em matéria deste teor, porque a sendo o respeito mutuo e a liberdade individual (não só, mas também) valores multiculturais, o pressuposto de que esta corrente consagraria tais barbáries implicaria que esta corrente não se "respeitasse" a si mesma. Outra questão de salientar, é que em termos reais não tivemos por parte de Estados democráticos nenhuma cedência desse tipo, nem essas cedências podem ser feitas em nome do multiculturalismo visto serem contraditórias em relação ao mesmo. Todas as reclamações por parte de extremistas que reivindicam da tolerância para praticar a intolerância, não foram atendidas, e por isso temos até tido manifestações positivas no sentido em que temos sociedades multiculturais que mantém a sua ordem jurídica e que respeitam em simultâneo a diversidade.
P.S.
Não deixa de ser irónico que uma das "fontes" de receio, o Islamismo, tenha ambições universalistas à semelhança de quem rejeita o multiculturalismo e afirma o universalismo.